Desolate Era – Livro 1, Capítulo 2 – Reencarnação

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— Por ordens do Lorde do Palácio Cui, vim para escoltá-lo pela Estrada das Primaveras Amarelas, irmãozinho.

No alto, uma mulher, toda vestida de roxo, voava enquanto segurava Ji Ning pela mão, que observava os arredores.

Há pouco estava no palácio. Como aparecera em pleno ar repentinamente?

— Atrevo-me a perguntar, mas quem exatamente é o Lorde Cui? — perguntou, intrigado. — Ouvi dizer que me encontraria com os Juízes dos Mortos antes de reencarnar. Eles investigariam minhas vidas passadas e a presente, só então eu seria reencarnado, não é?

— Você já não viu um Juiz? — A mulher de roxo riu. — Como Guardião do Livro da Vida e da Morte, ele é o Primeiro Juiz dos Mortos, Lorde do Palácio Cui, Cui Jue.

Sua enorme fama já havia se espalhado pelos Três Reinos.

O Reino Mortal era vasto, muito além da compreensão. Tinha três mil mundos principais e trilhões de menores. Cada ser vivo, antes de nascer, teria os feitos bons e ruins avaliados pelos Juízes. Era uma grande responsabilidade! Além disso, todo o Reino do Submundo tinha trilhões deles, que eram responsáveis por julgar as almas dos mortos de todos esses mundos. Mas Cui Jue era o líder de todos eles e portava o título de Primeiro Juiz. Era o verdadeiro Guardião do Livro da Vida e da Morte. Seu poder era tão grande que o fazia ficar no mesmo nível que os Dez Reis do Inferno.

— Veja. A Estrada das Primaveras Amarelas. — A mulher apontou para uma vasta estrada à frente deles, com inúmeros fantasmas andando lentamente, em fila. — Se segui-la, sem demora, chegará à Ponte do Desespero. Depois de atravessá-la e beber do Elixir do Esquecimento da Vó Meng, poderá renascer. Agora, vá!

Ela fez um gesto com a mão, e o corpo de Ji Ning foi cercado por uma luz dourada, a qual o levou até a frente da fila, permitindo que ele a “furasse”.

Os soldados minotauro perto dali, ao verem a mulher de roxo que lá flutuava, não se atreveram a dizer uma palavra sequer. Até mesmo escolheram um entre eles para levar Ji Ning, mostrando respeito extremo ao fazê-lo.

***

A Estrada das Primaveras Amarelas era coberta por uma névoa. Diversas almas passavam por ela, e Ji Ning estava entre eles.

— O que é aquilo? — disse, percebendo algo à frente. Lá, o nevoeiro era muito mais espesso. Todas as almas que entravam, desapareciam, sem nunca mais voltar.

— Continue. A Fonte do Desespero está logo à frente. — disse o minotauro ao seu lado, com gentileza.

Ji Ning assentiu e, sem hesitar, deu o próximo passo, entrando no denso nevoeiro. De repente, sentiu como se o espaço-tempo tivesse mudado.

— Onde estou? — encarou os arredores, confuso. Diante dele havia um caminho sinuoso. Formas fantasmagóricas eram vistas. Algumas dezenas de fantasmas podiam ser vistos mais à frente. No final do pequeno caminho havia um rio de águas velozes e túrbidas.

— Esta deve ser a lendária Ponte do Desespero. — continuou adiante. — Mas é estranho. Diversas pessoas entraram aqui, sem dúvida quanto a isso, porém, depois de eu ter entrado, parece que tem tão poucas?

Como ele poderia saber que ali, na Ponte do Desespero, o tempo fluía de forma diferente do mundo externo? Como dizia o ditado: “Para cada dia que se passa no Céu, um ano se passa no mundo mortal”.

O tempo lá passava em um ritmo muito mais acelerado. Um único dia no Reino do Submundo seria equivalente a vários anos na Ponte do Desespero.

— Ah! Ah!

— Sinto muito!

Enquanto continuava sem percurso pela ponte, viu que, no outro lado, havia um lago de sangue. Era possível ver todos os tipos de insetos e cobras venenosas e cães raivosos, prontos para morder qualquer um. A maioria dos fantasmas simplesmente passava pelo lago de sangue, entretanto, alguns afundavam. Ficou claro que essas pessoas carregavam grandes pecados, sendo incapazes de evitar aquilo.

— Se soubesse o que aconteceria hoje, teria agido de forma errada no passado? — Ji Ning balançou a cabeça. Em seguida, olhou para o outro lado. — Tão belo.

Perto do Rio do Esquecimento havia uma infinidade de flores belíssimas. Não muito longe, uma joia preciosa cintilava, criando diversas imagens diferentes. Era a lendária Pedra das Três Vidas, que se referia às “vida passada”, “atual” e “próxima”. Um pouco além da joia, era possível ver uma plataforma de pedra. Era a Plataforma de Visualização da Origem. Depois que as almas passavam por ela, chegavam até a Vó Meng.

Ela parecia uma velhinha muito comum. Segurava uma tigela d’água, entregando-a para cada alma, permitindo que elas bebessem dela. Depois de o fazer, as almas ficavam apáticas e pareciam entrar em transe, então, começavam a andar de forma automática em direção a um dos seis túneis de renascimento atrás da Vó Meng.

— Deva, Asura, Mortal, Animal, Fantasma Faminto e Inferno. — Ji Ning observava os insondáveis túneis profundos atrás dela.

— Não vou beber. Não quero me esquecer de tudo, não quero…

Muitos dos fantasmas se debatiam. Porém, não importava o quanto resistissem, ainda eram forçados por uma força inexorável e invisível, que fazia com que bebessem do Elixir. Mesmo se gritassem ou uivassem, bebiam mesmo assim e, logo após, independentemente de quão fortes eram as emoções, ou quão profundas eram as memórias, se esqueciam de tudo. Então, deixavam de ser eles mesmos.

— Estou prestes a entrar no Reino Celestial. Embora recupere minhas memórias quando completar dezesseis anos, não sei dizer se as dos dezesseis anos lá serão as principais ou se as da minha vida passada que serão. Sendo assim, ainda seria eu?

Sentiu um certo pesar. Entretanto, tinha certeza de algo. Nesta vida, só chegou até os dezoito, mas, no Reino Celestial, durante os dezesseis anos que se passariam, seria muito mais poderoso do que antes. Era muito provável que suas memórias atuais fossem as secundárias.

— Mas o que eu poderia fazer? — Já estava sendo puxado, então deixou-se levar pelo controle daquela força.

Os fantasmas bebiam do Elixir da Vó Meng. Ainda tinham mais seis à sua frente. Logo seria a vez dele.

— O Elixir da Vó Meng. — Ji Ning a olhou.

Porém, foi a primeira vez que a viu levantar a cabeça. Ela encarou os céus, e, de repente, sua voz anciã disse, com raiva:

— Insolentes!

Uma explosão ocorreu!

Os céus pareciam estar prestes a cair, e a terra se romperia. Rachaduras começaram a aparecer no céu logo acima, e a névoa que cobria o ambiente espalhou-se e dissipou-se, expondo os diversos fantasmas no mundo externo. As fraturas no espaço transformaram vários deles em pó. Como se fossem bolhas estourando, as almas começaram a desaparecer, todas gritavam diante do fim miserável.

Explosões ocorriam uma atrás da outra. Em pleno ar, dragões negros podiam ser vistos, cada um deles parecia tão grande quanto uma gigantesca cordilheira. Parecia que Ji Ning conseguia ver até as escamas sombrias deles.

Todos planavam, sem se importar muito, e, de repente, cuspiram várias ondas de raios negros. Em instantes, trilhões de raios atingiram o chão. Cada um deles fazia o céu e a terra se abrirem.

— Formação da Vida e da Morte dos Dragões Calamitosos do Reino Gêmeo? Como se atrevem a atacar os Seis Caminhos da Reencarnação? Este é um pecado gravíssimo! — Vó Meng gritou com uma fúria desenfreada. Ao se transformar em um raio de luz, voou em direção os milhões de dragões negros que pairavam no céu. Rapidamente, todos eles a cercaram.

Estrondos tomavam lugar. O mundo estava rachando, e as águas lamacentas do Rio do Esquecimento começaram a formar ondas. Todas as almas que as tocavam eram dissipadas. A Ponte do Desespero se despedaçou, e aqueles que estavam sobre ela caíram diretamente no Rio. Quanto aos Seis Caminhos da Reencarnação, os profundos túneis também começavam a tremer, e luz brilhava de dentro deles.

— Uou. — Ji Ning sentiu medo da calamidade que testemunhava. Ao mesmo tempo, conseguia sentir a força que o prendia se dissipando. — Vou me arriscar!

Quando a força se foi por completo, ele ficou tanto surpreso quanto grato. Saltando e ziguezagueando, correu em direção ao túnel do Reino Mortal. Os Seis Caminhos da Reencarnação estavam localizados em diferentes locais. Pelo fato de a maioria entrar no túnel do Reino Mortal, ele ficava logo atrás da Vó Meng, sendo, por este motivo, o mais próximo de Ji Ning. Então, ele preferiu entrar ali mesmo.

Os fantasmas ao redor também pulavam dentro dos outros túneis. Um deles tentou correr até o mais distante, o túnel do Reino Celestial.

Então, de repente, um raio negro o atingiu. Sem conseguir se esquivar a tempo, dissipou-se em instantes, junto de vários outros que estavam próximos.

***

O que tinha acontecido no Reino do Submundo?

Inúmeros dragões voando em círculo, trilhões de raios negros que atingiam o chão… toda aquela cena aterrorizante o deixou chocado. Mas ele sabia que, como um simples fantasma, não fazia sentido se preocupar muito com aquilo. Além disso, neste momento, não tinha tempo para tal, porque sua cabeça doía!

Sentiu que ela doía demais, como se algo a agarrasse e tentasse arrancá-la. Seu pescoço também doía, e o corpo sofria uma pressão intensa.

Hua!

De repente, sentiu um alívio, mas, então, um frio de gelar os ossos o atingiu. Ao mesmo tempo, ar fresco entrou em sua boca. Foi a primeira vez que respirou desde que morreu.

— Uou! — Depois de respirar fundo, chorou.

O choro de um bebê.

— Um menino! É um menino! — Ainda que sua audição estivesse um tanto distorcida, conseguiu entender o que fora dito.

— Ah. Eu renasci! — No mesmo instante, Ji Ning compreendeu.

 


 

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